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A Neurobiologia da Identidade de Gênero


Os cérebros das pessoas transgênero são diferentes dos cérebros das pessoas cisgênero? Apesar dos muitos desafios para a pesquisa nesta área, as evidências empíricas existentes sugerem que há uma contribuição neurobiológica para a identidade Trans.


Nos últimos anos, técnicas como a imagem por ressonância magnética funcional começaram a fornecer pistas para possíveis fundamentos biológicos da identidade Trans. Em particular, os pesquisadores estão identificando semelhanças e diferenças entre aspectos da estrutura e função dos cérebros de indivíduos Trans e Cisgêneros que podem ajudar a explicar a convicção de que o gênero de uma pessoa e o sexo atribuído ao nascimento não combinam. De qualquer forma, os insights dessas pesquisa podem percorrer um longo caminho para satisfazer o desejo de algumas pessoas transgêneros de compreender as raízes de sua condição.

Uma incompatibilidade de desenvolvimento entre sexo e gênero?

Uma hipótese proeminente é que a diferenciação sexual dos genitais ocorre separadamente da diferenciação sexual do cérebro no útero, tornando possível que o corpo possa virar em uma direção e a mente em outra. [1]  Na raiz desta ideia está a noção de que o próprio gênero – o sentido de a qual categoria alguém pertence, em oposição ao sexo biológico – é determinado no útero para os humanos. 

Estudos realizados com humanos descobriram que, em várias regiões, os cérebros de pessoas trans têm uma maior semelhança com os de pessoas cis que compartilham o gênero dos sujeitos trans do que para aqueles do mesmo sexo atribuído ao nascimento. [2-5] (Exemplo: o cérebro de um Homem Trans têm maior semelhança com o cérebro de um Homem Cis do que com o cérebro de uma Mulher Cis). Além disso, essas diferenças não parecem ser atribuíveis à influência das flutuações dos hormônios sexuais endógenos ou ao tratamento hormonal na idade adulta.

Outros estudos identificaram características do cérebro transgênero que se situam entre o que é típico de ambos os sexos – resultados que os proponentes da hipótese de incompatibilidade de desenvolvimento geralmente veem como suporte para sua ideia. [6]

Ainda há aqueles que apresentaram resultados mistos, lançando dúvidas sobre a hipótese de incompatibilidade de desenvolvimento. São estudos que identificaram características do cérebro trans que parecem mais próximas do sexo atribuído ao nascimento, mas com algumas diferenças em determinadas regiões do cérebro. [7-12]

Em 2018, foi publicado o primeiro estudo realizado na América Latina que reforça a concepção de que a Identidade Trans tem uma base biológica. [13] Inclusive é um estudo brasileiro realizado na Universidade Federal de São Paulo publicado no periódico Scientific Reports. Por meio das imagens realizadas por ressonância, os pesquisadores descobriram que os dois grupos de mulheres trans participantes apresentavam um tamanho reduzido de uma área conhecida como ínsula, a região ligada à percepção do próprio corpo. O mesmo aconteceu com as mulheres cis. Já os homens cis não apresentaram tamanho menor na área.

O fato de essas diferenças se estenderem além das áreas e circuitos cerebrais classicamente associados às funções sexuais e endócrinas levanta a possibilidade de que a transexualidade também esteja associada a mudanças nas redes cerebrais envolvidas na autopercepção. [14]

A pesquisa científica sobre a identidade transgênero é relativamente nova e lenta. Além disso, os cientistas enfrentam desafios logísticos em busca de uma compreensão biológica da identidade de gênero. Normalmente é difícil recrutar sujeitos transgêneros suficientes para conduzir estudos com alto poder estatístico. Mas alguns pesquisadores estão trabalhando para remediar esse problema! A literatura começou a nos levar a uma maior confiança de que a identidade transgênero tem uma base biológica, psicológica e, em menor medida, sociológica.

Referências

  1. Bao AM, Swaab DF. Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in neuroendocrinology. 2011 Apr 1;32(2):214-26.
  2. Zhou JN, Hofman MA, Gooren LJ, Swaab DF. A sex difference in the human brain and its relation to transsexuality. Nature. 1995 Nov;378(6552):68-70.
  3. Kruijver FP, Zhou JN, Pool CW, Hofman MA, Gooren LJ, Swaab DF. Male-to-female transsexuals have female neuron numbers in a limbic nucleus. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2000 May 1;85(5):2034-41.
  4. Garcia-Falgueras A, Swaab DF. A sex difference in the hypothalamic uncinate nucleus: relationship to gender identity. Brain. 2008 Dec 1;131(12):3132-46.
  5. Burke SM, Kreukels BP, Cohen-Kettenis PT, Veltman DJ, Klink DT, Bakker J. Male-typical visuospatial functioning in gynephilic girls with gender dysphoria—organizational and activational effects of testosterone. Journal of psychiatry & neuroscience: JPN. 2016 Nov;41(6):395.
  6. Kranz GS, Hahn A, Kaufmann U, Küblböck M, Hummer A, Ganger S, Seiger R, Winkler D, Swaab DF, Windischberger C, Kasper S. White matter microstructure in transsexuals and controls investigated by diffusion tensor imaging. Journal of neuroscience. 2014 Nov 12;34(46):15466-75.
  7. Hoekzema E, Schagen SE, Kreukels BP, Veltman DJ, Cohen-Kettenis PT, Delemarre-van De Waal H, Bakker J. Regional volumes and spatial volumetric distribution of gray matter in the gender dysphoric brain. Psychoneuroendocrinology. 2015 May 1;55:59-71.
  8. Zubiaurre-Elorza L, Junque C, Gómez-Gil E, Segovia S, Carrillo B, Rametti G, Guillamon A. Cortical thickness in untreated transsexuals. Cerebral Cortex. 2013 Dec 1;23(12):2855-62.
  9. Guillamon A, Junque C, Gómez-Gil E. A review of the status of brain structure research in transsexualism. Archives of Sexual Behavior. 2016 Oct 1;45(7):1615-48.
  10. Junger J, Habel U, Bröhr S, Neulen J, Neuschaefer-Rube C, Birkholz P, Kohler C, Schneider F, Derntl B, Pauly K. More than just two sexes: the neural correlates of voice gender perception in gender dysphoria. PLoS One. 2014 Nov 6;9(11):e111672.
  11. Savic I, Arver S. Sex dimorphism of the brain in male-to-female transsexuals. Cerebral Cortex. 2011 Nov 1;21(11):2525-33.
  12. Feusner JD, Lidström A, Moody TD, Dhejne C, Bookheimer SY, Savic I. Intrinsic network connectivity and own body perception in gender dysphoria. Brain imaging and behavior. 2017 Aug 1;11(4):964-76.
  13. Spizzirri G, Duran FL, Chaim-Avancini TM, Serpa MH, Cavallet M, Pereira CM, Santos PP, Squarzoni P, da Costa NA, Busatto GF, Abdo CH. Grey and white matter volumes either in treatment-naïve or hormone-treated transgender women: a voxel-based morphometry study. Scientific reports. 2018 Jan 15;8(1):1-0.
  14. Heylens G, De Cuypere G, Zucker KJ, Schelfaut C, Elaut E, Bossche HV, De Baere E, T’Sjoen G. Gender identity disorder in twins: a review of the case report literature. The Journal of Sexual Medicine. 2012 Mar 1;9(3):751-7.

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